Wednesday, June 20, 2007

Deus e espiritualidade na sociedade de consumo


No princípio dos tempos, os deuses estavam em todo lado. Num universo em que tudo era novo e grande e o homem sabia pouco, só os deuses explicavam os fenómenos naturais, só o divino poderia cabalmente explicar o mistério da vida, os constantes círculos de vida e de morte à nossa volta. O sol nascia e punha-se porque os deuses o queriam, as tempestades surgiam, trazendo ao mesmo tempo destruição e fertilidade como uma manifestação do divino misterioso que, com um capricho, podia a qualquer hora deixar de nos trazer os dons da vida. Com os tempos fomos descobrindo, perguntando, sabendo mais, e o espaço dos deuses foi recuando cada vez mais. Sabemos agora exactamente porque se põe e nasce o sol, porque crescem as colheitas e nascem bebés, de que elementos são feitas as coisas. Sabemos também que nada se cria ou perde, apenas se transforma. E no entanto, nesta época em que sabemos tantas coisas, a fé continua a ser um elemento presente, um elemento necessário.Se os deuses não servem para nos explicar os mistérios- o que não sabemos, a ciência está a trabalhar para saber- para que servem então? A resposta não é simples nem óbvia, sendo muitas vezes mais pessoal que outra coisa. Qual o papel da religião, da fé, da espiritualidade na sociedade global de consumo?
A primeira hipótese terá de ser, no meu entender, a necessidade humana de pertença, o sentido de se incluir num grupo maior e encontrar aquilo que todos procuramos: aceitação. Mesmo que seja só por motivos de tradição formais, como o que acontece agora na igreja católica europeia, ser da religião X ou Y dá-nos uma identidade enquanto indivíduos, uma comunidade à qual pertencemos, mesmo que não pratiquemos. Noutras partes do mundo a religião é o equivalente a uma tribo, um passaporte, uma bandeira. Ser judeu ou árabe são coisas muito diferentes na Europa e na Palestina, Líbano ou Síria, como ser católico ou protestante não era o mesmo na Irlanda do Norte que na França, por exemplo. Mas esta identificação vai muito para além de motivos políticos e culturais. O papel da religião é uma coisa muito mais íntima e emocional. Não é por acaso que florescem tantas seitas onde se fala tanto de amor e de perdão e felicidade e comunidade. A igreja, a fé, constitui um grupo que oferece apoio e segurança, como uma família que ama incondicionalmente, oferecendo refúgio e apoio em relação ao mundo cada vez mais distante e frio. Ser amado, sentir o amor e a aprovação por parte de outros é um impulso básico do ser humano, que facilmente ultrapassa a lógica e a razão.
Outro possível motivo para a religião é a necessidade que o ser humano tem de encontrar controlo e razão num universo de acasos e azares. Agora que sabemos tanto de ciência, que cada vez conhecemos mais o carácter arbitrário da existência, maior necessidade sentimos de uma coisa que explique, que encontre o padrão por entre todos os acasos que nos acontecem, um fim último que justifique as injustiças, o sofrimento, o medo, a dor que caracteriza a nossa vida. Se existir um deus, ou deuses, será possível interceder pelas nossas causas, pedir favores, oferecer reparação dos nossos erros, e, dessa forma evitar catástrofes e dores, controlando assim um pouco do curso da nossa existência. Podemos rezar por sucesso e riqueza, podemos pedir perdão pelo mal que fizemos provando assim, à existência teórica de um deus, que merecemos viver, que merecemos as recompensas terrenas ou divinas que pretendemos. Deus, neste sentido, é uma espécie de airbag ou cinto de segurança, que nos prende e protege em caso de embate, que, como diz a oração, nos livra de todo o mal.
Outro papel da religião, ou outras formas de espiritualidade, e talvez o mais importante, é o de forma de consolação no desespero. Não é, de forma alguma casual que muitas pessoas em situação desesperada se voltem para a religião de forma muitas vezes fanática. Se virmos muitos membros de seitas vemos pessoas que passam, ou passaram, por situações muito complicadas ao nível pessoal ou familiar. Quanto maior o desespero maior a necessidade humana de uma força que nos console, que esteja lá para nós em alturas difíceis. Quem tem conforto, uma vida familiar ou pessoal estável sente menos falta de um deus consolador que aqueles que sofrem, ou estão doentes.
Por último, todas as religiões oferecem uma visão relativa da vida, no sentido de explicarem que o que vivemos não é tudo o que haverá. Face à morte, a única coisa que a ciência não explica nem evita, a religião dá a garantia que a morte não será o fim. Castigados ou recompensados pelos nossos actos, reencarnados ou presos no mundo dos espíritos, continuaremos, num qualquer plano de existência, a ser. O que, parecendo que não, como diz o anúncio, facilita.
A sociedade actual foi-se laicizando cada vez mais até a religião ocupar um espaço íntimo de esfera pessoal. Na maior parte dos países ocidentais as práticas religiosas regulares quase foral eliminadas estando apenas presentes em alturas muito especificas como marcando ritos de passagem: o nascimento, a união, a morte. E no entanto, muitas formas residuais de fé e espiritualidade subsistem. Mesmo que as formas de religião organizada tenham cada vez menos fiéis, quase todos temos a necessidade de um poder superior a nós, diferente de nós que explique e ajude, que controle o nosso destino, desde as cartas de tarot e a velinha que ajude, ao futebolista que tem rituais de sorte. Mesmo que não se pratique religião, há sempre "modas" espirituais que se seguem, desde a onda espírita, à fé em fadas, anjos, ou até mesmo extraterrestres. A fé é inerente ao ser humano, intrínseca. Pensar-se-ia que a fé, face à ciência se tornaria obsoleta. Não tornou. Talvez porque acreditar na existência de uma força superior, qualquer que seja, seja mais fácil de aceitar que este aqui e agora em que vivemos e que, como diz Ricardo Reis, há noite antes e após o pouco que duramos.

Wednesday, June 13, 2007

Monday, June 11, 2007

Quem tem medo da globalização?

Com as vozes que se insurgem com uma regularidade monótona contra a globalização, e que vêm de muitos (e antagónicos entre si) movimentos, a globalização é o papão mais recente. É, consensualmente uma coisa má. Porque há tantas críticas a este fenómeno? Sem querer ser parcial, mas já sendo, talvez porque existam boas razões para isso.
Actualmente, e para produzir o mais barato possível, o primeiro passo é, antes de mais, reduzir os gastos com os trabalhadores. As horas de trabalho aumentam ou são brutalmente reduzidas (como os salários), os benefícios sociais com coisas de somenos como saúde e desemprego reduzem, etc. E como nós vivemos numa cultura civilizada em que as condições de trabalho têm regras estritas (coisas mesquinhas por que se lutou décadas, como horas de trabalho aceitáveis, salários dignos, segurança no trabalho etc.), para produzir mais barato, deslocaliza-se. Dito assim até parece bom, muda-se uma fábrica de um sítio onde produzir é mais caro (devo realçar mais uma vez por causa de coisas mesquinhas como os salários e benefícios dos trabalhadores) para um sítio onde é mais barato, estimulando o crescimento económico de uma área mais desfavorecida. A chatice é deixar para trás milhares de desempregados causando crises gigantescas nas regiões afectadas (como por exemplo o sector mineiro na Inglaterra, ou os despedimentos em massa da indústria siderúrgica americana) e, quase sempre problemas ambientais complicados. E sendo o mercado o que é, assim que o nível de vida aumentar no país para onde a indústria se transferiu muda-se de novo para outro sítio mais barato, deixando, tal como uma praga de gafanhotos, tudo arrasado para trás.
O motivo porque as coisas são tão baratas quando nos chegam às mãos é, quase invariavelmente, a exploração de trabalhadores, a constituição de uma mão-de-obra que se não é escrava anda lá perto, e a negação de todo e qualquer direito em termos de trabalho (e quantas vezes, infelizmente, direitos humanos). Claro que nós não nos queixamos dos artigos incrivelmente baratos que vêm da Índia ou da China. Queremos ter coisas, muitas coisas. E quanto mais baratas, mais coisas podemos ter. E não julguem que isto se restringe aos artigos mais baratos de marca branca, mas também, e sobretudo, aos artigos mais caros, às marcas que fixam status e criam cobiça. Apesar das campanhas nos media contra as sweatshops (termo que designa fábricas que produzem artigos de luxo com mão de obra escrava ou muitíssimo mal paga, por exemplo imigrantes ilegais nos Estados Unidos), a verdade é que todos queremos o relógio ou os jeans ou o gadjet da moda e não nos importamos peva com como foi produzido.
Tirando as franjas mais radicais das sociedades desenvolvidas, esta solução é uma que agrada a todos (apesar de ser moralmente objeccionável). Dificilmente os governos dos países se vão queixar de investimento no seu país, porque, feitas as contas, trabalho escravo, salários miseráveis e destruição do ambiente são preferíveis a nenhum trabalho e nenhuns salários e uma população sem perspectivas. Dificilmente os trabalhadores se vão queixar de serem explorados, pois que, mais uma vez, trabalhar muitas horas para sobreviver é preferível a morrer de fome. E muitíssimo dificilmente o consumidor final se queixa de ter produtos mais baratos à sua disposição.
Na era global de comunicação, vivemos todos mergulhados no verniz intenso do progresso e da modernidade. Os media vendem-nos uma imagem brilhante, lustrosa de um mundo bom, livre, esclarecido e próspero, onde tudo é possível. E todos os países do mundo engolem felizes essa imagem, em parte porque é mais fácil que aceitar a dura realidade, em parte porque nos convém mais olhar só para as coisas boas, o lado brilhante da vida no século XXI. É mais fácil centrar-nos nas coisas boas da modernidade- a Internet, a comunicação global, a prosperidade (tantas vezes aparente) que naqueles que sofrem e são explorados. Como a Rússia pré-revolução de um lado há o brilho intenso de uma sociedade opulenta e de outro contraste com os milhões que vivem em servidão, fome e desespero. Não que isto seja motivo de alarme, descansem.
Não haverá, desta vez, nenhum movimento revolucionário que corte as gordas cabeças capitalistas, descansem. Não seremos assassinados nas nossas camas confortáveis por uma turba que chegou ao limite de resistência. Ah, não. Estamos todos demasiado imersos no mundo consumista para isso. Os pobres e desfavorecidos deste mundo não querem um mundo melhor porque este está perfeitamente bem como está, querem só e apenas uma fatia do bolo, uma parcela da opulência civilizacional que o hemisfério norte construiu para si. Querem os símbolos, tantas vezes fúteis, do progresso a que chegámos, as Nike e os Nokia e a Coca-cola e o big mac, os plasmas e as máquinas digitais, o blogger e youtube, a Burberry's e a Chanel, porque a felicidade reside aí. Os oponentes a este fenómeno têm forçosamente de ser radicais perigosos e hippies desajustados, ambientalistas alucinados, antipatriotas e subversivos que se devem reprimir e ignorar. Quem, se não doidos perigosos se atreveriam a negar a excelência do modelo actual? Vivemos, como diria o Cândido do Voltaire, no melhor dos mundos possíveis.
Na realidade, objectar à globalização é um bocado um exercício fútil, porque ela existe, sendo esta posição mais um posicionamento filosófico ou ético, se quiserem, que uma verdadeira militância política. Numa época em que tudo está perto de tudo e tudo se pensa em termos globais e tempo real, a globalização é "apenas" o reflexo económico deste tudo em todo o lado. Se retirarmos o hype das campanhas publicitárias e o frenesim mediático, a globalização é apenas um alargamento do bom velho princípio capitalista: produzir o mais barato possível para vender o mais caro possível e fazer o maior lucro possível. Apesar de isso levantar objecções morais já no início da revolução industrial a verdade é que, em termos de dinheiro, em equipa que ganha não se mexe. Na que vende também não.
Devo confessar que o cinismo duro por detrás do espírito da globalização me incomoda um bocadinho (pronto, está bem, muito). É imoral e vergonhoso. Para ver o que a deslocalização está a fazer é só olhar à nossa volta para a crise em que estamos mergulhados. Para ver como a globalização é perversa e desigual é só olhar para o estado social de países da América do sul ou da Ásia. Mas não há muito a fazer. A simples defesa destas ideias já me dá um passe garantido para a ala radical de esquerda libertária (de que, por acaso até já faço parte). E depois porque qualquer coisa que se diga costuma chocar com os nossos hábitos de consumo enraizados. Apesar de nunca ter sido obcecada com marcas e status também sou consumista (os sapatos são o meu bilhete para o inferno na perspectiva de qualquer bom comunista) e nem sempre consigo subtrair-me ao hype mediático da publicidade. O que não me impede, mesmo assim, de detestar a ideia de globalização. Era para fazer um texto mais imparcial sobre globalização e acabei por fazer um totalmente anti. Oh well. O que tem de ser, tem de ser...

Tuesday, May 22, 2007

O lado certo da verdade

Como faz parte da natureza humana simplificar, temos a tendência para medir a realidade, como a nós mesmos, em termos maniqueístas de bem e mal, branco e preto, certo e errado. Interpretamos a vida- e a história- em termos do bem e do mal com que medimos tudo, sendo que, de certa forma o bem e o certo acabam sempre por ganhar. E por uma estranha coincidência nós estamos do lado certo.
É , de certa forma, uma tranquilidade e um consolo saber que nós, cidadãos do mundo ocidental, nascemos, crescemos e vivemos do lado certo, daquele que se quer exportar e espalhar. Haverá alguma dúvida que nós somos aqueles que vivemos de forma mais justa, mais confortável, mais igualitária? De há, digamos, uns cem anos para cá somos os que vivemos melhor, os que têm mais direitos, que vivem com mais paz, segurança e prosperidade. Somos os bons, mainada. E com isto nos podemos sentar no cimo da nossa superioridade e ditar leis aos outros porque, em última análise, somos quem tem razão. Certo? Errado.
Se nos anos 90 se discutia muito estas coisas de certo e errado, com o desintegrar do bloco de leste e as guerras a modos que discutíveis (sobretudo as dos Balcãs), o novo milénio voltou a separar as águas. O trauma dos atentados terroristas um pouco por todo o mundo "civilizado" voltou a clarificar a questão. Quem não está connosco está, por conseguinte, contra nós, e, inevitavelmente, errado.
Claro que esta coisa de se estar do lado certo ou errado pode ser uma discussão inútil e estéril. Os universitários radicais à esquerda e à direita que contestam o sistema fazem-no sancionados por este. Ou seja, protestam porque podem protestar, sem serem alvos de represálias. Mas tirando estes arroubos de radicalidade endémica, analisadas as coisas de forma fria e racional, nem sempre o nosso lado é o certo, nem sempre o podemos ver como tal.
Se começarmos pelas pequenas coisas, as questões de pormenor, o nosso sistema não é perfeito, está até bem longe de o ser. O estado está mais para sinaleiro de trânsito que para rede de segurança para as desgraças dos cidadãos. As companhias globais veneram mais o lucro que a ética e são estados poderosos, mais poderosos que os países onde estão inseridos. A sua dimensão colossal permite-lhe trancender leis e regulamentos mais incómodos, como o dos direitos dos trabalhadores. A livre iniciativa significa, grosso modo que quem tem dinheiro se safa e quem não tem não. É verdade que nos podemos queixar, mas queixas não enchem barriga, dão conforto ou reconhecimento social.
Depois há ainda as coisas grandes, aquelas de fundo que regulam a nossa convivência com os outros países. Aqueles que não estão do nosso lado. Nós vivemos bem, é verdade, e enquanto seres civilizados e sensíveis podemos ter pena e compaixão para com os menos afortunados, contribuir para boas causas, fazer voluntariado. Mas não pomos em questão o preço das coisas que nos chegam às mãos, o preço real. Poderemos nós abdicar das caixas de presentes, dos sapatos baratinhos, dos oito pares de jeans? Paramos para pensar na exploração dos operários que os fazem? Not really. É que isto de se estar do lado certo e viver bem vem a um preço caro, e raramente somos nós que o pagamos.
Mas analisemos as coisas de outro ponto de vista, do ideológico. Afinal economia é uma coisa, ideologia outra. Podemos dormir descansados a saber que fazemos sempre as coisas certas? Se virmos a famigerada guerra ao terror na hidra que é a guerra do Iraque, as certezas abalam-se um bocado. Não só poderemos pôr em causa os motivos nobres que nos deram para ir para lá, como a nossa acção (nossa no sentido da comunidade internacional em geral) se pode discutir e muito. Como poderemos ser nós os bons ao usarmos os mesmos métodos de interrogatório que os maus? Como poderemos ser nós os bons se as nossas acções fazem sofrer e morrer inocentes, se condenam gerações de homens, mulheres e crianças a viver no terror e na precaridade de campos de refugiados? Faz pensar, não é?
Podemos ter uma abordagem cínica e pragmática à coisa, aceitando que não se podem fazer omeletes sem quebrar uns quantos ovos, justificando assim os "excessos" de quem nos defende e tenta expandir as fronteiras. Todos estes abusos serão justificados se os considerarmos como um caminho para o bem maior, que é trazer mais pessoas para o lado do bem. Podemos ter a atitude da avestruz que é, basicamente, ignorar o que nos rodeia e concentrarmo-nos no que está dentro das nossas fronteiras de segurança e conforto. Ou podemo-nos revoltar e lutar contra o que achamos mal dentro e forado lado certo, o que é cansativo, frustrante e, a maioria das vezes fútil. Podemo-nos resignar e saber que a história é lenta mas o bem acaba por, eventualmente por ganhar ( o que não é grande conforto para os que são agora alvos de injustiça, mas prontos). É tudo uma questão de ver o copo meio-cheio ou meio- vazio. Uma questão de perspectiva. Como viver ou não do lado certo da verdade.

Wednesday, May 16, 2007

Os limites da democracia



O que define as nossas convicções políticas? A família? O meio onde crescemos? A sociedade em que estamos inseridos? As três coisas, certamente, mas algo mais. Algo de profundamente pessoal e que engloba aquilo que somos como indivíduos, medos traumas, ambições. Só assim se explica a minha dissidência à esquerda numa familia uniformemente de direita, ou o fenómeno dos manos Portas, filhos dos mesmos pais, educação e meio social e com visões políticas diametralmente opostas.
Na democracia em que vivemos esta opção de convicções políticas é admissível, senão esperada. A cultura ocidental, tão pródiga na sua promoção do individualismo, espera que cada um pense por si e se posicione face ao mundo, assim como espera que os restantes o aceitem, por menos que concordem. Essa é a fundação da democracia, essa capacidade de conceber que haja pessoas com ideias diferentes às nossas e que a elas têm direito, por mais que nos apeteça mandá-los calar ou apertar o pescocinho.
Se a democracia não é perfeita, e conhecemos-lhe tantas falhas, ao menos numa coisa todos concordamos: a base de tolerância é o modelo essencial que pretendemos exportar para civilizar os bárbaros, é por esta atitude que muitos (tantos!) povos oprimidos lutam e dão a vida. Claro que nós que já estamos confortávelmente instalados nas convicções vemos as coisas de forma consideravelmente diferente. E temos dilemas morais por causa disso mesmo.
A possível (provável?) entrada da Turquia na União Europeia é só uma pequena ponta do iceberg de uma Europa democrática pouco confortável na sua pele. Desde debates sobre religião a pequenas erupções do acne extrema-direita, fica-se com a ideia que democracia é mais clara- e mais fácil- em teoria.
Se não entrarmos no assunto sensível do choque de civilizações, a entrada da Turquia na União Europeia continua a ser um assunto espinhoso e ingrato. Por cada vantagem há sempre algo com o qual não estamos confortáveis. Se, por um lado, pode constituir um enclave fundamental no mundo árabe, qualquer coisa como o último posto de civilização antes dos bárbaros (leia-se com ironia, mas não muita), por outro são uma porta de entrada excelente para terroristas e outra coisa ainda pior: hordas de emigrantes . E se a Europa treme com a possibildade de ondas de emigrantes de cor ou religião tão diferente... Se por um lado a Turquia é um excelente mercado, com uma economia em expansão, por outro lado o seu desprezo por direitos humanos deixa-nos mais que só um pouco desconfortáveis. Louvamos-lhe a laicidade do governo, quase caso único no mundo árabe, mas a religião predominante e tudo o que engloba- o tratamento das mulheres, o apelo ao fanatismo religioso- causa-nos repulsa e repúdio. Em última análise, o clube cristão da Europa prefere manter o menino árabe de fora, e acabou-se.
O imaginário colectivo europeu tem uma imagem construída da civilização árabe não especialmente positiva. Foram séculos e séculos de lutas e de hostilidade. A democracia na Europa é demasiado recente (o que são cinquenta anos comparados com os novecentos e cinquenta anteriores?) para conseguir encaixar o árabe com tolerância e como igual (não com o paternalismo de quem acha que pertence a uma civilização superior).
Encaremos a verdade: a entrada da Turquia na União Europeia é um teste aos limites da nossa capacidade democrática, um teste não superado até agora.
Sejamos honestos (eu, pelo menos, vou ser) : a capacidade de tolerância em democracia é elástica, mas não ilimitada. Temos liberdade de expressão, mas não podemos ter sexo em público. A pornografia é aceite, mas não outro tipo de vivências da sexualidade, como a pedofilia. Podemos ter convicções políticas à vontade, mas os movinmentos de extrema-direita de inspiração nazi/xenófoba/racista são, no mínimo dos mínimos, desencorajados. Afinal, a democracia tem e, dentro dos seus limites naturais, faz respeitar os valores de uma matriz ética específica. E esses valores são os limites da democracia. Da raiz do movimento revolucionário- liberdade, igualdade, fraternidade, emanaram um conjunto de valores expressos em documentos tão importantes como a carta dos direitos humanos, a convenção europeia ou a carta dos direitos fundamentais e que, em teoria, regem a nossa vida comum em democracia. E estes valores não podem (nem devem) na minha opinião ser negociados ou postos em causa. Afinal nisto (e só nisto) concordo com Bento XVI- o relativismo moral é perigoso e indesejável, há limites.
Confesso que, apesar de esquerda, a entrada da Turquia me deixa um tudo-nada incomodada. Tudo aquilo em que acredito e tento praticar sobre o repúdio da sobranceria cultural, a tolerância religiosa e a compreensão por todos os seres humanas entra em directo conflito sobre aquilo que sei sobre a Turquia. Tento não deixar o medo vencer, mas é muito difícil, neste momento civilizacional, para qualquer cidadão ocidental não ter pelo menos um bocadinho de fobia em relação ao mundo árabe. Fico furiosa por este medo (as bases de todas as racionalizações acima são também um bocado isto, mas sou eu e muitos milhões na UE a pensar assim) e mais ainda por ir contra as minhas convicções da democracia, mas não há volta a dar-lhe, a democracia tem mesmo limites, e o que está para lá das suas fronteiras mete medo. Muito.

Tuesday, May 15, 2007

O Senhor Terceira Via



Dez anos depois, à saída, Tony Blair deixa poucas saudades. Aquilo que começou como um mandato cheio de esperança acabou amargo e contestado, mesmo dentro do próprio partido, alguns achando até que deveria ser julgado por crimes de guerra. Mas goste-se ou não se goste deixa um legado insuperável, a terceira via.
Nos anos noventa cá em Portugal, Guterres foi aclamado como o herdeiro cá no burgo da terceira via de Blair. A terceira via era a coqueluche da governação da Europa de então. Sabem o que dizem, que se há algum sítio onde se inova ao nível de governo dos povos essse sítio é a Europa.
Para o bem e para o mal somos nós o tubo de ensaio de modelos governativos que depois são exportados para o resto do mundo. Ora, o novo modelo experimentado a partir dos anos noventa, e que está bem e se recomenda, foi a terceira via. Num contexto ideologicamente bem demarcado, tanto à esquerda como à direita, a terceira via veio trazer o que, na altura se achou uma lufada de ar fresco, libertando-se das partes mais dogmáticas da ideologia em questão para governar mais, digamos, ao centro. É a esquerda light, assim não muito esquerda. Se um jornal inglês ironizou chamando de gémeos siameses Guterres e Durão Barroso, eles também não tinham muito por onde falar tendo como primeiro ministro um Blair tão Thatcher como a senhora Thatcher em questão de sindicatos, salários, condições de trabalho e impostos.
Também na questão da guerra foi Blair terceira via, demarcando-se dos seus congéneres europeus e alinhando, até às últimas consequências, com os Estados Unidos, com os resultados que se viram.
No fundo, o maior legado que Blair deixou foi precisamente esta terceira via, esta maneira de governar em terceira via, nem carne nem peixe, uma espécie de surfismo político em que se apanham as ondas que dão mais jeito e votos. É isso, e não a ideologia, que governa neste momento a Europa. A esquerda perdeu causas e razões com a queda do bloco, a direita deu tal volta ideológica que a reaccionária, porque não se mexe, é agora a esquerda. Blair foi o primeiro desta geração de desenrascados que fazem pela vida e não ligam a promessas e sim à conjuntura. Foi o primeiro, mas não o último. Infelizmente.