Saturday, December 22, 2007

Rosas e Prosas do Deserto


"Estou aqui, a escrever, com o volante do jipe a servir de mesa. (...) Há bocado estive deitado na areia, junto à fogueira, a olhar as estrelas. Estive a pensar exactamente nisso: que, contas feitas, ainda vou meter dinheiro do meu bolso para fazer esta reportagem. Mas se, por absurdo, a RTP para o ano quiser negociar comigo o preço para voltar a fazer isto, não havia dinheiro que me chegasse. Ou vinha pelas estrelas, pela poeira, pela violência das pistas, por esta sensação de ter dado tudo o que tenho, ou não vinha. O burocrata da secção de viagens está radiante por nos poder demonstrar que vale mais ficar em Lisboa a filmar conferências de imprensa do que andar um mês e meio a viajar no Sahara. E o mais engraçado de tudo é que eu nem sei o que lhe hei-de responder, quando tiver de apresentar o documento nº 28/B, relativo ao fim da viagem, para assinalar o meu regresso a casa, e ele me fizer a sacramental pergunta: ´então, essas férias lá no deserto, foram boas, hem?`.
Olha, pá, tu tens toda a razão. Mas juro-te que hás-de morrer sem conhecer o prazer de estar deitado de costas na areia, coberto de pó e de sujidade, a arritar atum por todos os lados, com todos os músculos a doerem, e a olhar para um céu pejado de estrelas e pensar que é fantástico estar vivo. (...)"

(Miguel Sousa Tavares, ´Sul `, 1998)


"Há dois anos atrás, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena destas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão..."

(Luís Filipe Meneses, ´Coragem de Mudar`, 2007)

Saturday, December 1, 2007


Votam hoje dois dos países mais poderosos do mundo. Não sendo as eleições para a chefia máxima do país, muito é referendado. Na Venezuela e na Rússia, Hugo Chavez e Vladimir Putin dão mais uns passos nas suas caminhadas para a história, assim o escrevem, emulando Bolívar ou os czares com actos enérgicos, o petróleo em alta e o modo de discurso adaptado: tribunício e festivo em Caracas, sóbrio a Lubyanquesco em Moscovo.
Em breve poderemos estar perante dois estados não-livres democráticos, onde o atropelo se escuda na legitimação do voto. Nada a que não estejamos a assistir, de modo mais lento, nas sociedades actuais - tão aterrorizados estamos que queremos mesmo é um poder executivo e um braço da lei fortes o suficiente para nos proteger, assim como sentir que ele representa mesmo os nossos interesses, que nos defenda do "outro" que pode ser o yankee, o magrebino, o chinês ou o terrorista. Se aparecer ´deus ex machina` uma personificação daquilo que o sentimento da comunidade associa ao mais distinto da sua memória, melhor.

Saturday, November 24, 2007

RTP


Afundada no buraco da falta de qualidade e à beira do abismo financeiro, a RTP levou uma "voltinha" por alturas de 2002-2003, era ministro Morais Sarmento. Fez-se uma comissão de sábios, esgrimiram-se modelos e slogans (o "Não Desligue" nos cartzes à beira da 5 de Outubro). No final de contas, não houve grandes ondas mas há mudanças. Mas faça-se uma análise destes anos sem entrar nos opacos pormenores legais e contabilísticos.

Com a gestão do recém chegado e agora saído Almerindo Marques, assim como umas valentes injecções da tutela, a RTP conseguiu aguentar-se e descer os custos operacionais. Passou a operar de uma nova sede adaptada ao propósito (e não da carcaça do que era para ser um hotel nas Avenidas Novas). Recrutaram-se caras respeitáveis que fazem trabalho de qualidade (Nuno Santos à cabeça), ganharam-se audiências e concorre-se quase ombro a ombro com a TVI e a SIC sem tanto futebol ou tantas novelas no horário nobre.

No fundo, levou-se a cabo uma política de gestão com mais pés e cabeça, suportada politica e financeiramente a médio prazo e que ganhou a adesão do público. Mas esta é uma gestão com muitos constrangimentos. Logo de início esta restruturação dá a entender ter feito uns fretes aqui e ali: o fim da publicidade no 2º canal (frete aos outros grupos privados de media e ás recomendações dos sábios), o resgate de um canal de notícias várias vezes naufragado na Serra do Pilar e que se tornou na obscura RTP-N (o que também ocorre por haver um superior competidor na SIC-Notícias). E, atendendo tanto à comissão de sábios como ao que parecia ser uma boa ideia na época, a RTP Memória. Esta mostra-nos afinal duas coisas: que estamos mesmo hoje numa idade de ouro no que toca à qualidade da ficção televisiva e que um arrastão naufragou no porto de Sines faz hoje vinte e tal anos deixando um morto e uma mancha de fuel na baía. Mas fora isso pouco mais se tira de um canal que serve de argumento a uma série de boas piadas de situação.



Sou levado um pouco a crer que o que pior da RTP encontra-se, além da excessiva auto-comemoração, em aspectos como estes - os quais, fazendo parte das recomendações dos sábios, constituem a espinha dorsal do serviço público de televisão como ele existe hoje (e mais não lhes era pedido, que se diga). Por isso, qual é o ponto de manter esse serviço público de televisão na RTP?


É sempre arriscado prever o amanhã, quanto mais daqui a 5, 10 anos. Mas com a revolução digital à porta a TV entra num mundo onde vai haver mais escolhas para mais espectadores, uma competição acelerada onde os contrangimentos de serviço público impostos à RTP vão acentuar as dificuldades em que esta atinja o seu objectivo último, que não é audiência mas sim influência.


Monday, November 12, 2007

Sobre a ´Arca de Zoe`

Assume-se muitas vezes que as ONG actuam no melhor dos propósitos e no cumprimento da legalidade. Mais do que tomar este caso como prova refutatória dessa atitude acredito que esta é uma ovelha negra parte de um universo de gente que verá, com este caso, o seu trabalho legítimo ainda mais dificultado: aparentemente a ´Arca de Zoe` actuou no desrespeito consciente das leis e na traição da boa vontade de tripulação (que julgava tratar-se de uma missão sanitária legal) e da população local (que julgava tratar-se de educar as crianças). Tudo interrompido ficou um grande mal feito: as crianças acabaram por ficar semi-abandonadas numa terra sem fronteiras nem ordem, algumas terão parentes vivos mas não os sabem identificar; e os velhos caciques africanos aproveitaram para mandar mais umas diatribes na velha potência colonizadora. Esta, que aqui já se habituou a ser olhada com suspeição (no todo das suas gentes), já está condenada.
Esperemos que o que move a Arca de Zoe não seja então o despertar de um braço (físico) de uma consciência social europeia, independente de governos e das organizações tradicionais, vistas como mais institucionalizadas, logo mais comprometidas e ineficazes. Se houver dinheiro e vontade haverá a tentação de actuar como mercenários da justiça. Especialmente em relação a uma terra onde as relações internacionais acabam quase sempre por se separar dos direitos humanos, onde o futuro não parece auspiciar mudanças radicais no cenário do desenvolvimento das condições de vida das populações.
(Retrato da autoria de Enzi Shahmiri)

Friday, November 2, 2007

O elefante e a loja de porcelanas


Há uma parábola budista que fala de um grupo de monges cegos a quem foi dado um elefante para observar. Cada um deles pode tocar numa parte do elefante. Um dos monges disse que o elefante era como uma corda, outro como um grande pote, outro como o arado, outro como um pilão de almofariz, outro uma grande cortina. E todos tinham razão. E , por outro lado, todos estavam errados. Esta metáfora é perfeita para analisar o problema do médio oriente. Todos abarcam uma parte do problema, nenhuma parte as abarca a todas. Primeiro, porque toda a experiência humana é imperfeita e parcial, depois porque há demasiados impedimentos, demasiados bloqueios para as coisas serem vistas a uma luz mais favorável.
A primeira questão que provoca a cegueira, em toda a questão do médio-oriente é a questão da história e a perspectiva que pos povos que a vivem têm dela. Se, para os livros de história ocidentais o médio oriente está nos livros de história no início da civilização humana, praticamente desaparece na era cristã só para sessurgir, como do nada, depois da segunda guerra mundial. E infelizmente para todos os envolvidos há mais a dizer sobre o médio oriente que as visões romanceadas transmitidas nos romances da Agatha Christie . Há histórias de lutas, conquistas, massacres e sacrifícios que nós não entendemos, custando a pôr em perspectiva revoltas e mentalidades. Mas por exemplo, para os palestinianos e egípcios forçados a traçar o caminho de lá para cá e de cá para lá de acordo com caprichos políticos, a ideia de criar do nada um país reduzindo-lhes o território não parece assim tão boa.
O segundo factor de cegueira no problema do médio-oriente é a religião. Como pode o ponto de convergência de três das maiores religiões do mundo não ser um pomo de discórdia se, historicamente, o tem sido sempre? A terra sagrada é um naco apetecível para os cães raivosos de fanatismo que todas as religiões têm num ponto ou outro da sua história.
O terceiro factor de cegueira é a ambição, a ambição desmedida de querer mais, ter mais, aparecer mais, poder mais. A região não é só sagrada, é também próspera, tisnada de tanto petróleo. Como o pomo de beleza dos deuses, todos o querem agarrar.
O último factor de cegueira, talvez o maior de todos é a intolerância e o fanatismo que é mais que religioso, é civilizacional, contrapondo duas formas de encarar o mundo e a vida, o valor relativo da vida, da morte e o sacrifício. Ninguém acha que haja preços demasiado altos a pagar, nem o martírio, nem o massacre de milhares de inocentes, nem o condenar de gerações e gerações aos campos de refugiados. Nenhuma peça é importante demais para ser poupada neste xadrez geopolítico.
Como elefante que é, este problema, não só é percebido total e completamente por todas as partes envolvidas como conserva outras caracteristicas de elefante : avança implacavelmente por todo lado, incontrolável, pisando tudo e todos os que se encontram no seu caminho e, como numa casa de porcelanas, deixando cacos de vidas, de um lado e do outro, à sua passagem...

Thursday, October 18, 2007

Volver

Aquele que escreve nos blogs quer que a luz que o ilumina seja a de um sol radioso nascendo todos os dias, mas sabe bem que no máximo ele escreve à luz das velas no meio da noite escura, por vezes levantado da penumbra por um relâmpago tão intenso quanto fugaz.

Que os próximos tempos sejam então de tempestade.

Como dizia o outro, esta noite é tão boa como qualquer outra para aqui volver.

Thursday, October 4, 2007

Depois dos Casamentos Perfeitos...

A Noite de núpcias...
A Lua de Mel em Paris....



Monday, September 10, 2007

O peixe e a cana de pesca


A verdade é que, passado um tempo, imagens como estas começam a cansar. Com as entranhas esfaceladas de choque e culpa só queremos voltar a cabeça para o lado e deixar de ver, desligar a televisão ou fechar o jornal e pensar em coisas queridas e fofinhas como gatinhos acabados de nascer, esquecer. Periodicamente chegam-nos os pedidos de socorro mas estamos já habituados, mais do mesmo, sempre mais do mesmo a acontecer aos pobres. Fora do nosso quintal passa-se fome e as crianças morrem na primeira infãncia, subnutridas, doentes, negligenciadas. Ouvimos as estatísticas, conhecemos o que dizem muito bem. Que o que gastamos numa saída à noite pagava todas as vacinas a uma criança num país do terceiro mundo. Que a verba destinada a alimentação de cães e gatos conseguiria provavelmente servir para fornecer saneamento básico a países sub-desenvolvidos, que aquilo que gastamos em cinema pagava a educação a muitos milhões de pessoas. Não me parece que tenhamos o coração mole ou aberto o suficiente para isto conseguir fazer uma verdadeira diferença. Talvez demos uma moeda para uma colecta, moeda essa que, diga-se, serviria provavelmente para comer mais um doce, beber um café ou uma coisa assim. Damos pouco e sem coração, uma moeda uma vez por outra porque a consciência já não se aguenta.
Do ponto de vista cristão, isto é assim a modos que uma contradição dos diabos. Não tenho ido muito à missa nas últimas duas décadas, mas parece-me que me lembro distintamente do episódio da viúva, que JC louvou pessoalmente por dar, não como os fariseus o que lhe sobrava, mas sim o que lhe fazia falta. Sempre me pareceu essa a definição de caridade cristã. Ou melhor, é essa a noção de caridade cristã. Mas nisto de religião e dogma cada qual tira o que quer, como a agua benta e a presunção. E discutir as contradições da fé católica na soiedade ocidental é assunto demasiado extenso para aqui. Não é isso que quero abordar, mas sim esta estratégia de darmos através da pedinchice emocional e só através dela, esgotando-se os fundos para uma determinada causa por causa da sobre-exposição da mesma. E o modo como isso é feito de forma calculada.
Há acho que um ditado chinês que diz qualquer coisa que se se quer ajudar um homem se lhe deve dar não um peixe para comer mas sim uma cana de pesca, para pescar. O que é, de todos os pontos de vista, um conselho admirável. Dotar os desfavorecidos de meios para melhorarem a sua vida vai fazer mais que simplesmente encher-lhes a barriga. Vai dar-lhes motivação, sentido de propósito e orgulho. Ah. mas os deuses não permitam que existam por aí pobrezinhos orgulhosos. Se alguma coisa os pobrezinhos, na nossa óptica ociosa, devem ser humildes e gratos, de mão estendida e olho choroso...
Se pensam que este meu olhar é cínico sobre os donativos e o que esperamos receber em troca de, digamos, África, tenho três palavras para vocês: Política Agrícola Comum (PAC). Sim, essa mesma que manda subsidios giros para ovelhas fantasma e jeeps de agricultores. A política agrícola comum é, efectivamente, uma fonte de agravamento dos problemas em África. Eu explico. Um agricultor de África, por exemplo, vive abaixo do limiar de pobreza. Vamos que uma ONG ou o recurso ao micro-crédito (se for agricultora) ajuda a culticar um pequeno campo de batatas para vender. O custo final dessas batatas é, digamos, 25 cêntimos. E para recuperar o investimento e continuar operacional o agricultor tem de vender tudo o que produziu. Claro que depois a UE tem a PAC e regras estritas sobre quotas de produção e algum país maroto excedeu a sua quota de batatinhas. Num gesto de boa vontade estas são mandadas para África, dadas ou vendidas em sistema de dumping a 15 cêntimos o kg. A bem dizer que acabou de arruinar o pobre agricultor que deu o corpo ao manifesto e se empenhou no banco, perpetuando a mão estendida em vez da iniciativa de desenvolvimento. O que na nossa sociedade é não só uma virtude, mas obrigação (e os níveis de crescimento são vigiados pela OCDE como falcões), é desencorajado por esta caridade bacoca do outro lado.
A atitude de dar à parva, em vez de estimular, nos países de origem, o desenvolvimento sustentado, é um tremendo tiro no pé. Porque o que acaba de acontecer é que os desgraçados que vivem do outro lado do nosso mundo próspero vêm cada vez mais para os nossos países.O medo de sermos invadidos por hordas de Africanos ou Sul-Americanos famélicos é tão grande que erguemos muros cada vez mais altos, guardamos as fronteiras e estabelecemos quotas (a UE, então, adora quotas). Exploramos os que trabalham para nós ilegalmente e, quando achamos que são demais, ou já não precisamos deles, mandamo-los de volta para a fome e para o desespero. Sim, que os deuses, mais uma vez, não permitam que a nossa supremacia cultural e económica branca seja posta em causa por outros sotaques e tons de pele. Estou convencida que teriamos menos problemas de imigração (se é realmente um problema ) se ajudássemos, através da educação e do estimulo do desenvolvimento , os países dem dificuldades a dotarem-se de estruturas que resolvam os seus problemas.
Ver as coisas como são, em vez de como poderiam ser, dá-nos um sentimento de frustração tremendo. Um destes dias estive a ler um livro sobre uma ONG que tinha dotado uma aldeia africana com um poço de água potável, ensinando essas pessoas a construí-lo, mantê-lo e a usá-lo correctamente. Os aldeões não só ficaram satisfeitos por uma fonte de água limpa e segura como, passado algum tempo o poço continuava a funcionar de forma impecável, ao contrário dos outros cuja manutenção estava a cargo da ONG. É que é um principio básico do capitalismo: tomamos melhor conta das coisas se forem nossas e tivermos algo a ganhar com isso. Claro. A nossa satisfação hipócrita é que não tem aqui lugar. Se, em vez de pedirmos pontualmente, criarmos programas in loco para melhorar e elevar o nível de vida lá melhoramos não só o nível de vida, mas o nível emocional. Claro que isso ia implicar abdicar de alguns dos nossos luxos (PAC, PAC, PAC) e pagar um preço um pouco mais justo pelas coisas, enquanto que a pedinchice só implica abdicar de uma coisa insignificante e a curto prazo. Por isso não é de surpreender que seja a solução do peixe, e não a da cana de pesca a adoptada mais frequentemente. Claro. É a que nos deixa mais descansados...

Thursday, August 2, 2007

A bomba-relógio do multiculturalismo

O termo multiculturalismo foi, se não cunhado, pelo menos difundido durante os anos 90, tal como outros conceitos que viriam a marcar a década, como por exemplo o politicamente correcto ou o neo-hippy. Conceitos esses que seriam de tão optimistica pouca dura como a vibração positiva do iniício da década, deixando à mostra as nosssas imperfeições enquanto espécie, mas estou a adiantar-me, já lá vou.
Que uma década como a de noventa tenha sido alfobre rico de novos conceitos de tolerância cultural não é de estranhar, posto que marca uma época de pós- muita coisa. É a época pós-guerra fria, é a época pós-yuppy, é a época de pós-apartheid e pós-muro de Berlim e pós-guerra da Irlanda do Norte, até mesmo de pós-conflito em sítios improváveis como a Palestina, como Angola... O clima político era de optimismo, pelo que toda uma nova abordagem se tornava necessária, um repensar todos os aspectos da vida. Em termos privados repensaram-se os tradicionais papeis dos géneros, apelando-se a uma menor objectificação das mulheres e uma maior responsabilização dos homens enquanto companheiros e pais ( os conceitos de assédio sexual e date rape surgiram nesta mesma época, por exemplo), em termos públicos e políticos toda uma nova perspectiva de tolerância cultural surgiu, celebrando-se as diferenças em vez de apelar à manutenção de uma matriz cultural aglutinadora e absorvente como se tinha no passado. Surgiram nos Estados Unidos os chamados cidadãos hifenados, os African-American, Native-American que traduziam essa nova política de resgate e valorização da história, cultura e tradições das minorias, fazendo-se um esforço, pelo menos oficial, de incluir toda a gente e de não excluir ninguém deste novo e admirável mundo que surgia.
O objectivo por detrás do multiculturalismo era, ao mesmo tempo, uma espécie de redenção fruto da má consciência da civilização WASP (branca, anglo-saxónica e protestante) e uma nova maneira de ver as coisas, encorajando-se os recém-chegados imigrantes a manterem a sua identidade em vez de se diluirem nos celebrados melting pots das grandes cidades ocidentais. Numa sociedade como a portuguesa esta questão de absorção cultural nunca foi particularmente relevante (eu diria que bem antes pelo contrário, a cultura portuguesa sempre foi extraordinariamente àvida de coisas novas e partilha de experiências culturais, e olhem que isto é uma anti-colonialista que vis fala). Em sociedades culturalmente mais assertivas, como a Americana, ou a Inglesa e Alemã a abordagem do multiculturalismo é verdadeiramente radical e inovadora.
Este novo modelo optimista e , por vezes, um tanto vazio de multiculturalismo e aceitação de outras civilizações foi, como seria de esperar, bastante curto na sua duração. Apesar dos provados benefícios da manutenção de uma atitude tolerante, o traumático desenrolar da primeira década do novo milénio põs-lhe um fim abrupto. Que os grupos culturais aproveitassem o clima de liberdade para nos atacarem a nós e ao nosso estilo de vida era verdadeira e completamente inaceitável. Não é dificil perceber porque é que o multiculturalismo foi alvo fácil para todos os conservadores de direita: afinal, quando antes havia uma cultura dominante que tentava (e com extremo sucesso) obliterar as culturas dominadas, ninguém surgia do nada para nos atraiçoar e destruir. E devo dizer, em abono dos conservadores brancos e privilegiados da elite que alguns dos seus argumentos são válidos e pertinentes. Senão vejamos.
A sociedade americana construiu, do nada, uma cultura aglutinadora de gente de sítios diversos sendo próspera e de sucesso, e, se não formos muito exigentes nestas coisas, democrática. Sim, está bem, deu cabo da tradição, língua e cultura de muitas minorias, mas também significou o fim de muita boa tradição atrasada e nociva, como por exemplo o enfaixar de pés das meninas na comunidade Chinesa. Partir do princípio que a matriz cultural ocidental é superior é extraordinariamente arrogante, mas a verdade é que os seus padrões de tratamento de, por exemplo, mulheres são superiores às do islão, índia ou África, onde pouco mais que coisas da propriedade dos homens são. E a verdade é que há coisas que são feitas nos nossos países e são inaceitáveis, devem ser inaceitáveis, mesmo à luz da tolerância do multiculturalismo, como por exemplo os casos de excisão feminina que vieram à luz em Espanha, ou de mortes de honra e casamentos arranjados de menores em Inglaterra nas comunidades Indiana e árabe. Nesta prespectiva uma cultura forte e dominante que não tolera tradições arcaicas e bárbaras é uma vantagem inegável e, sob todas as perspectivas, uma ideia inteligente. A questão é, onde traçamos a linha, em que ficamos?
O chato nestas questões culturais é que nenhuma cultura é completamente superior à outra. é verdade que levamos coisas boas, como por exemplo uma medicina avançada e eficaz e os direitos humanos (mesmo aplicados imperfeitamente), mas exportámos também uma cultura cruel para com as imperfeições e as diferenças, obcecada com beleza, juventude e saúde, cruel com os velhos e os fracos, fria, indiferente, acomodada, stressada. Podem dizer-me que, em termos familiares, a rede carinhosa de família alargada típica da América Latina é pior que a família nuclear isolada da sociedade ocidental? No way. O multiculturalismo não é perigoso, só o é quando é tomado, por parte de radicais, como uma excelente desculpa para a violência e a intolerância.
Não foi, de todo, a tolerância cultural britânica que induziu os terroristas a entrar no metro e fazer-se explodir, antes o fanatismo religioso destes (e não da sua comunidade grosso-modo). Não foi a nossa atitude optimista de aceitação de diferentes culturas que nos tornou alvos fáceis para terroristas, mas sim políticas complexas (e por vezes contraditórias) de lidar com questões complicadas, como o problema palestiniano ou libanês que nos pintaram um alvo na testa (e estou simplesmente a relatar factos, não a tecer juizos de valor sobre a legitimidade do terrorismo, cuidado).
Como filha dos anos noventa e membro algo relutante da X generation, a minha posição face ao multiculturalismo é a que sempre foi, mas compriendo os dilemas morais que pode causar.Onde estão as fronteiras entre comunidades definidas e guetos entrincheirados na sua própria vivência, incapazes (e sem vontade nenhuma) de se integrar? Onde fica a fronteira entre a vontade de fazer valer os direitos humanos básicos e a imposição de uma cultura? Até que ponto não foi provado já que, por vezes, a imposição á força de um modelo cultural é benéfica e vantajosa, evitando muito trabalho e conflitos? Excelentes perguntas que, certamente mereciam uma excelente resposta. Não sou sábia o suficiente para as responder, mas perguntar já é um princípio.

Tuesday, July 31, 2007

Wednesday, July 25, 2007

Noticiário digestivo


As coisas bem vistas, nunca a humanidade esteve tão bem informada. Também é verdade que nunca tantos foram tão prósperos, viveram tanto e tão bem, tiveram acesso à cultura e ao saber. No nosso admirável mundo novo, tudo se pode saber,ver e ouvir, ou como diz o Bill Gates, anytime, anywhere, any format. As coisas estão disponíveis, lá. As coisas ditas desta forma, até parece que tudo vai bem no reino da Dinamarca.If only.
Estamos saturados de informação, deitamo-la pelas orelhas. Tudo se pode ver em todo lado. Mas claro que o ser humano é, por excesso e defeito, preguiçoso. Sim, está bem, a informação existe, mas isso não significa que a busquemos. A solução a que sechegou foi assim uma espécie de puré, umas papas cerelac noticiosas, hipoalergénicas, aptas para intolerantes a lactose, diabéticos e alérgicos vários.
Por irónico que pareça, nunca fomos tão livres para nos expressar, como também nunca tivemos tanto medo de dizer exactamente aquilo que pensamos. Na era da comunicação global, toda a gente anda em bicos de pés para não pisar zonas sensíveis a outros, para não errar. Sim, claro, as notícias existem e são transmitidas. Onde, quando e porquê é que pode ser discutido. É que mesmo que não falemos na CNN ou FOX News, dois canais americanos controlados directa ou indirectamente pelos media spinners do poder, a SIC notícias por exemplo, é controlada por outra ditadura pior: a das audiências. Na silly season em que estamos vemos os stunts do solitário e não a crise em Darfur, o trágico do Iraque ou da Palestina.
As notícias, para além de politicamente correctas e tendenciosas, por um motivo ou por outro ( e na língua humana tudo é sempre tendencioso), são voyeuristicas, mesquinhas e de memória curta. Evoluimos tanto mas continuamos a deleitar-nos com histórias de desventura alheia, gostamos de saber dos outros. É preciso doses cada vez maiores de miséria humana para nos fazer mexer do sofá, e mesmo assim a acção que tomamos acaba por se resumir a pouco mais que uma chamada telefónica, um e-mail solidário ou uma pulseira trendy de borracha. Ninguém nos explica o como e o porquê das coisas, mas também não o exigimos saber nem precisamos de respostas. Não nos perguntamos nunca pelo que acontece depois das câmaras se irem embora, apressadas para outra desgraça maior, para outra briga de celebridades, para outra peça comovente sobre animaizinhos abandonados e palhaços de circo. As notícias são uma espécie de prato obrigatório, rápido e de altos teores calóricos de drama e miséria, que não fazem bem mas descem. Nunca pudemos saber tanto e, no entanto, nunca quisemos saber tão pouco do que se passa para lá dos limites do nosso sofá. Dormimos de consciência tranquila no admirável mundo novo.

Saturday, July 14, 2007

A estratégia!

Uma Palavra


Questionado a 10 de Julho por um jornalista sobre a identidade da União Europeia, o seu actual presidente José Manuel Barroso respondeu:

"We are a very special construction unique in the history of mankind, sometimes i like to compare the EU as a creation to the organisation of empire. We have the dimension of empire. (...) What we have is the first non-imperial empire. We have 27 countries that fully decided to work together and to pool their sovereignty. I belive it is a great construction and we should be proud of it."

O presidente da comissão europeia escolheu uma palavra muito controversa para descrever a Europa, especialmente porque o numero daqueles que se revê nessa identidade é muito pequeno fora de Bruxelas ou Estrasburgo, ao contrário dos habitantes destas.

A Europa tem de se orgulhar do que fez nos últimos 50 anos em prol da União. Um movimento de base económica garante décadas de paz, desenvolvimento e concórdia entre os povos europeus, porventura a maior experiência de sempre do género na história da humanidade coroada com feitos como a moeda única ou o espaço de circulação comum. Mas a Europa discute por se ver numa encruzilhada.
Essa encruzilhada da Europa não decorrerá da falência do modelo, mas sim de uma série de questões marginais: como atingir uma governação mais eficiente, como ganhar maior protagonismo entre os novos actores globais, e onde estão as fronteiras deste espaço. Pode-se dizer que são questões pretinentes, mas dificilmente essenciais no dia-a-dia das populações nos vários cantos do continente.
A Europa continua numa maratona de cimeiras, encontros e tratados anuais para resolver estas questões. Por um lado é bom, na medida em que os aspectos essenciais da União se mantém como denominador comum e não são colocados em causa. Por outro lado, algumas das soluções preconizadas podem conduzir a um precipício - à criação de uma entidade soberana onde as pessoas não se reconheçam e que se aproprie tanto dos valores positivos anteriores como de valores mais discutíveis como uma "segurança comum" (i.e. exército europeu) ou uma "política externa comum" que dê dimensão política a uma europa economicamente pujante mas que, vítima de um sistema de maioria qualificada, se tenderá a afastar cada vez mais de um maior numero de europeus.
Mete-me sobretudo medo a distância que as vozes de alguns em Bruxelas ganham das realidades dos seus países de origem, como rapidamente aderem a uma "causa europeia" com espírito quase de seita, independentemente dos partidos ou dos países de onde são "eleitas". E as visões messiânicas que alguns começam a levantar, como Barroso, desse império por onde desejam propagar os seus valores favoritos. São vozes e visões que não levam em conta que a construção tem de ser feita das fundações para o telhado, caso contrário poderá ser pelo vento, pelo fogo ou pela água mas por certo se derrubará.

Já deixámos de ver a Europa como uma comunidade para a ver como uma União. Deixaremos de ver a Europa como uma União para a ver como um Império? E teremos nós portugueses uma palavra na tomada desse passo apesar de, por ironia suprema, serem dois portugueses a presidir ás principais instituições europeias?
Como exercício, proponho escolher entre as duas bandeiras seguintes: a direita, bandeira oficial da União Europeia com 12 estrelas; a esquerda, uma bandeira que contém em barras todas as bandeiras de todos os estados membros a exemplo de um código de barras, criada pelo arquitecto holandês Rem Koolhaas. A escolha só pode ser clara, digo, porque a diferença entre as ideias traduzidas numa e noutra são brutais.






Wednesday, June 20, 2007

Deus e espiritualidade na sociedade de consumo


No princípio dos tempos, os deuses estavam em todo lado. Num universo em que tudo era novo e grande e o homem sabia pouco, só os deuses explicavam os fenómenos naturais, só o divino poderia cabalmente explicar o mistério da vida, os constantes círculos de vida e de morte à nossa volta. O sol nascia e punha-se porque os deuses o queriam, as tempestades surgiam, trazendo ao mesmo tempo destruição e fertilidade como uma manifestação do divino misterioso que, com um capricho, podia a qualquer hora deixar de nos trazer os dons da vida. Com os tempos fomos descobrindo, perguntando, sabendo mais, e o espaço dos deuses foi recuando cada vez mais. Sabemos agora exactamente porque se põe e nasce o sol, porque crescem as colheitas e nascem bebés, de que elementos são feitas as coisas. Sabemos também que nada se cria ou perde, apenas se transforma. E no entanto, nesta época em que sabemos tantas coisas, a fé continua a ser um elemento presente, um elemento necessário.Se os deuses não servem para nos explicar os mistérios- o que não sabemos, a ciência está a trabalhar para saber- para que servem então? A resposta não é simples nem óbvia, sendo muitas vezes mais pessoal que outra coisa. Qual o papel da religião, da fé, da espiritualidade na sociedade global de consumo?
A primeira hipótese terá de ser, no meu entender, a necessidade humana de pertença, o sentido de se incluir num grupo maior e encontrar aquilo que todos procuramos: aceitação. Mesmo que seja só por motivos de tradição formais, como o que acontece agora na igreja católica europeia, ser da religião X ou Y dá-nos uma identidade enquanto indivíduos, uma comunidade à qual pertencemos, mesmo que não pratiquemos. Noutras partes do mundo a religião é o equivalente a uma tribo, um passaporte, uma bandeira. Ser judeu ou árabe são coisas muito diferentes na Europa e na Palestina, Líbano ou Síria, como ser católico ou protestante não era o mesmo na Irlanda do Norte que na França, por exemplo. Mas esta identificação vai muito para além de motivos políticos e culturais. O papel da religião é uma coisa muito mais íntima e emocional. Não é por acaso que florescem tantas seitas onde se fala tanto de amor e de perdão e felicidade e comunidade. A igreja, a fé, constitui um grupo que oferece apoio e segurança, como uma família que ama incondicionalmente, oferecendo refúgio e apoio em relação ao mundo cada vez mais distante e frio. Ser amado, sentir o amor e a aprovação por parte de outros é um impulso básico do ser humano, que facilmente ultrapassa a lógica e a razão.
Outro possível motivo para a religião é a necessidade que o ser humano tem de encontrar controlo e razão num universo de acasos e azares. Agora que sabemos tanto de ciência, que cada vez conhecemos mais o carácter arbitrário da existência, maior necessidade sentimos de uma coisa que explique, que encontre o padrão por entre todos os acasos que nos acontecem, um fim último que justifique as injustiças, o sofrimento, o medo, a dor que caracteriza a nossa vida. Se existir um deus, ou deuses, será possível interceder pelas nossas causas, pedir favores, oferecer reparação dos nossos erros, e, dessa forma evitar catástrofes e dores, controlando assim um pouco do curso da nossa existência. Podemos rezar por sucesso e riqueza, podemos pedir perdão pelo mal que fizemos provando assim, à existência teórica de um deus, que merecemos viver, que merecemos as recompensas terrenas ou divinas que pretendemos. Deus, neste sentido, é uma espécie de airbag ou cinto de segurança, que nos prende e protege em caso de embate, que, como diz a oração, nos livra de todo o mal.
Outro papel da religião, ou outras formas de espiritualidade, e talvez o mais importante, é o de forma de consolação no desespero. Não é, de forma alguma casual que muitas pessoas em situação desesperada se voltem para a religião de forma muitas vezes fanática. Se virmos muitos membros de seitas vemos pessoas que passam, ou passaram, por situações muito complicadas ao nível pessoal ou familiar. Quanto maior o desespero maior a necessidade humana de uma força que nos console, que esteja lá para nós em alturas difíceis. Quem tem conforto, uma vida familiar ou pessoal estável sente menos falta de um deus consolador que aqueles que sofrem, ou estão doentes.
Por último, todas as religiões oferecem uma visão relativa da vida, no sentido de explicarem que o que vivemos não é tudo o que haverá. Face à morte, a única coisa que a ciência não explica nem evita, a religião dá a garantia que a morte não será o fim. Castigados ou recompensados pelos nossos actos, reencarnados ou presos no mundo dos espíritos, continuaremos, num qualquer plano de existência, a ser. O que, parecendo que não, como diz o anúncio, facilita.
A sociedade actual foi-se laicizando cada vez mais até a religião ocupar um espaço íntimo de esfera pessoal. Na maior parte dos países ocidentais as práticas religiosas regulares quase foral eliminadas estando apenas presentes em alturas muito especificas como marcando ritos de passagem: o nascimento, a união, a morte. E no entanto, muitas formas residuais de fé e espiritualidade subsistem. Mesmo que as formas de religião organizada tenham cada vez menos fiéis, quase todos temos a necessidade de um poder superior a nós, diferente de nós que explique e ajude, que controle o nosso destino, desde as cartas de tarot e a velinha que ajude, ao futebolista que tem rituais de sorte. Mesmo que não se pratique religião, há sempre "modas" espirituais que se seguem, desde a onda espírita, à fé em fadas, anjos, ou até mesmo extraterrestres. A fé é inerente ao ser humano, intrínseca. Pensar-se-ia que a fé, face à ciência se tornaria obsoleta. Não tornou. Talvez porque acreditar na existência de uma força superior, qualquer que seja, seja mais fácil de aceitar que este aqui e agora em que vivemos e que, como diz Ricardo Reis, há noite antes e após o pouco que duramos.

Wednesday, June 13, 2007

Monday, June 11, 2007

Quem tem medo da globalização?

Com as vozes que se insurgem com uma regularidade monótona contra a globalização, e que vêm de muitos (e antagónicos entre si) movimentos, a globalização é o papão mais recente. É, consensualmente uma coisa má. Porque há tantas críticas a este fenómeno? Sem querer ser parcial, mas já sendo, talvez porque existam boas razões para isso.
Actualmente, e para produzir o mais barato possível, o primeiro passo é, antes de mais, reduzir os gastos com os trabalhadores. As horas de trabalho aumentam ou são brutalmente reduzidas (como os salários), os benefícios sociais com coisas de somenos como saúde e desemprego reduzem, etc. E como nós vivemos numa cultura civilizada em que as condições de trabalho têm regras estritas (coisas mesquinhas por que se lutou décadas, como horas de trabalho aceitáveis, salários dignos, segurança no trabalho etc.), para produzir mais barato, deslocaliza-se. Dito assim até parece bom, muda-se uma fábrica de um sítio onde produzir é mais caro (devo realçar mais uma vez por causa de coisas mesquinhas como os salários e benefícios dos trabalhadores) para um sítio onde é mais barato, estimulando o crescimento económico de uma área mais desfavorecida. A chatice é deixar para trás milhares de desempregados causando crises gigantescas nas regiões afectadas (como por exemplo o sector mineiro na Inglaterra, ou os despedimentos em massa da indústria siderúrgica americana) e, quase sempre problemas ambientais complicados. E sendo o mercado o que é, assim que o nível de vida aumentar no país para onde a indústria se transferiu muda-se de novo para outro sítio mais barato, deixando, tal como uma praga de gafanhotos, tudo arrasado para trás.
O motivo porque as coisas são tão baratas quando nos chegam às mãos é, quase invariavelmente, a exploração de trabalhadores, a constituição de uma mão-de-obra que se não é escrava anda lá perto, e a negação de todo e qualquer direito em termos de trabalho (e quantas vezes, infelizmente, direitos humanos). Claro que nós não nos queixamos dos artigos incrivelmente baratos que vêm da Índia ou da China. Queremos ter coisas, muitas coisas. E quanto mais baratas, mais coisas podemos ter. E não julguem que isto se restringe aos artigos mais baratos de marca branca, mas também, e sobretudo, aos artigos mais caros, às marcas que fixam status e criam cobiça. Apesar das campanhas nos media contra as sweatshops (termo que designa fábricas que produzem artigos de luxo com mão de obra escrava ou muitíssimo mal paga, por exemplo imigrantes ilegais nos Estados Unidos), a verdade é que todos queremos o relógio ou os jeans ou o gadjet da moda e não nos importamos peva com como foi produzido.
Tirando as franjas mais radicais das sociedades desenvolvidas, esta solução é uma que agrada a todos (apesar de ser moralmente objeccionável). Dificilmente os governos dos países se vão queixar de investimento no seu país, porque, feitas as contas, trabalho escravo, salários miseráveis e destruição do ambiente são preferíveis a nenhum trabalho e nenhuns salários e uma população sem perspectivas. Dificilmente os trabalhadores se vão queixar de serem explorados, pois que, mais uma vez, trabalhar muitas horas para sobreviver é preferível a morrer de fome. E muitíssimo dificilmente o consumidor final se queixa de ter produtos mais baratos à sua disposição.
Na era global de comunicação, vivemos todos mergulhados no verniz intenso do progresso e da modernidade. Os media vendem-nos uma imagem brilhante, lustrosa de um mundo bom, livre, esclarecido e próspero, onde tudo é possível. E todos os países do mundo engolem felizes essa imagem, em parte porque é mais fácil que aceitar a dura realidade, em parte porque nos convém mais olhar só para as coisas boas, o lado brilhante da vida no século XXI. É mais fácil centrar-nos nas coisas boas da modernidade- a Internet, a comunicação global, a prosperidade (tantas vezes aparente) que naqueles que sofrem e são explorados. Como a Rússia pré-revolução de um lado há o brilho intenso de uma sociedade opulenta e de outro contraste com os milhões que vivem em servidão, fome e desespero. Não que isto seja motivo de alarme, descansem.
Não haverá, desta vez, nenhum movimento revolucionário que corte as gordas cabeças capitalistas, descansem. Não seremos assassinados nas nossas camas confortáveis por uma turba que chegou ao limite de resistência. Ah, não. Estamos todos demasiado imersos no mundo consumista para isso. Os pobres e desfavorecidos deste mundo não querem um mundo melhor porque este está perfeitamente bem como está, querem só e apenas uma fatia do bolo, uma parcela da opulência civilizacional que o hemisfério norte construiu para si. Querem os símbolos, tantas vezes fúteis, do progresso a que chegámos, as Nike e os Nokia e a Coca-cola e o big mac, os plasmas e as máquinas digitais, o blogger e youtube, a Burberry's e a Chanel, porque a felicidade reside aí. Os oponentes a este fenómeno têm forçosamente de ser radicais perigosos e hippies desajustados, ambientalistas alucinados, antipatriotas e subversivos que se devem reprimir e ignorar. Quem, se não doidos perigosos se atreveriam a negar a excelência do modelo actual? Vivemos, como diria o Cândido do Voltaire, no melhor dos mundos possíveis.
Na realidade, objectar à globalização é um bocado um exercício fútil, porque ela existe, sendo esta posição mais um posicionamento filosófico ou ético, se quiserem, que uma verdadeira militância política. Numa época em que tudo está perto de tudo e tudo se pensa em termos globais e tempo real, a globalização é "apenas" o reflexo económico deste tudo em todo o lado. Se retirarmos o hype das campanhas publicitárias e o frenesim mediático, a globalização é apenas um alargamento do bom velho princípio capitalista: produzir o mais barato possível para vender o mais caro possível e fazer o maior lucro possível. Apesar de isso levantar objecções morais já no início da revolução industrial a verdade é que, em termos de dinheiro, em equipa que ganha não se mexe. Na que vende também não.
Devo confessar que o cinismo duro por detrás do espírito da globalização me incomoda um bocadinho (pronto, está bem, muito). É imoral e vergonhoso. Para ver o que a deslocalização está a fazer é só olhar à nossa volta para a crise em que estamos mergulhados. Para ver como a globalização é perversa e desigual é só olhar para o estado social de países da América do sul ou da Ásia. Mas não há muito a fazer. A simples defesa destas ideias já me dá um passe garantido para a ala radical de esquerda libertária (de que, por acaso até já faço parte). E depois porque qualquer coisa que se diga costuma chocar com os nossos hábitos de consumo enraizados. Apesar de nunca ter sido obcecada com marcas e status também sou consumista (os sapatos são o meu bilhete para o inferno na perspectiva de qualquer bom comunista) e nem sempre consigo subtrair-me ao hype mediático da publicidade. O que não me impede, mesmo assim, de detestar a ideia de globalização. Era para fazer um texto mais imparcial sobre globalização e acabei por fazer um totalmente anti. Oh well. O que tem de ser, tem de ser...

Tuesday, June 5, 2007

Tuesday, May 22, 2007

O lado certo da verdade

Como faz parte da natureza humana simplificar, temos a tendência para medir a realidade, como a nós mesmos, em termos maniqueístas de bem e mal, branco e preto, certo e errado. Interpretamos a vida- e a história- em termos do bem e do mal com que medimos tudo, sendo que, de certa forma o bem e o certo acabam sempre por ganhar. E por uma estranha coincidência nós estamos do lado certo.
É , de certa forma, uma tranquilidade e um consolo saber que nós, cidadãos do mundo ocidental, nascemos, crescemos e vivemos do lado certo, daquele que se quer exportar e espalhar. Haverá alguma dúvida que nós somos aqueles que vivemos de forma mais justa, mais confortável, mais igualitária? De há, digamos, uns cem anos para cá somos os que vivemos melhor, os que têm mais direitos, que vivem com mais paz, segurança e prosperidade. Somos os bons, mainada. E com isto nos podemos sentar no cimo da nossa superioridade e ditar leis aos outros porque, em última análise, somos quem tem razão. Certo? Errado.
Se nos anos 90 se discutia muito estas coisas de certo e errado, com o desintegrar do bloco de leste e as guerras a modos que discutíveis (sobretudo as dos Balcãs), o novo milénio voltou a separar as águas. O trauma dos atentados terroristas um pouco por todo o mundo "civilizado" voltou a clarificar a questão. Quem não está connosco está, por conseguinte, contra nós, e, inevitavelmente, errado.
Claro que esta coisa de se estar do lado certo ou errado pode ser uma discussão inútil e estéril. Os universitários radicais à esquerda e à direita que contestam o sistema fazem-no sancionados por este. Ou seja, protestam porque podem protestar, sem serem alvos de represálias. Mas tirando estes arroubos de radicalidade endémica, analisadas as coisas de forma fria e racional, nem sempre o nosso lado é o certo, nem sempre o podemos ver como tal.
Se começarmos pelas pequenas coisas, as questões de pormenor, o nosso sistema não é perfeito, está até bem longe de o ser. O estado está mais para sinaleiro de trânsito que para rede de segurança para as desgraças dos cidadãos. As companhias globais veneram mais o lucro que a ética e são estados poderosos, mais poderosos que os países onde estão inseridos. A sua dimensão colossal permite-lhe trancender leis e regulamentos mais incómodos, como o dos direitos dos trabalhadores. A livre iniciativa significa, grosso modo que quem tem dinheiro se safa e quem não tem não. É verdade que nos podemos queixar, mas queixas não enchem barriga, dão conforto ou reconhecimento social.
Depois há ainda as coisas grandes, aquelas de fundo que regulam a nossa convivência com os outros países. Aqueles que não estão do nosso lado. Nós vivemos bem, é verdade, e enquanto seres civilizados e sensíveis podemos ter pena e compaixão para com os menos afortunados, contribuir para boas causas, fazer voluntariado. Mas não pomos em questão o preço das coisas que nos chegam às mãos, o preço real. Poderemos nós abdicar das caixas de presentes, dos sapatos baratinhos, dos oito pares de jeans? Paramos para pensar na exploração dos operários que os fazem? Not really. É que isto de se estar do lado certo e viver bem vem a um preço caro, e raramente somos nós que o pagamos.
Mas analisemos as coisas de outro ponto de vista, do ideológico. Afinal economia é uma coisa, ideologia outra. Podemos dormir descansados a saber que fazemos sempre as coisas certas? Se virmos a famigerada guerra ao terror na hidra que é a guerra do Iraque, as certezas abalam-se um bocado. Não só poderemos pôr em causa os motivos nobres que nos deram para ir para lá, como a nossa acção (nossa no sentido da comunidade internacional em geral) se pode discutir e muito. Como poderemos ser nós os bons ao usarmos os mesmos métodos de interrogatório que os maus? Como poderemos ser nós os bons se as nossas acções fazem sofrer e morrer inocentes, se condenam gerações de homens, mulheres e crianças a viver no terror e na precaridade de campos de refugiados? Faz pensar, não é?
Podemos ter uma abordagem cínica e pragmática à coisa, aceitando que não se podem fazer omeletes sem quebrar uns quantos ovos, justificando assim os "excessos" de quem nos defende e tenta expandir as fronteiras. Todos estes abusos serão justificados se os considerarmos como um caminho para o bem maior, que é trazer mais pessoas para o lado do bem. Podemos ter a atitude da avestruz que é, basicamente, ignorar o que nos rodeia e concentrarmo-nos no que está dentro das nossas fronteiras de segurança e conforto. Ou podemo-nos revoltar e lutar contra o que achamos mal dentro e forado lado certo, o que é cansativo, frustrante e, a maioria das vezes fútil. Podemo-nos resignar e saber que a história é lenta mas o bem acaba por, eventualmente por ganhar ( o que não é grande conforto para os que são agora alvos de injustiça, mas prontos). É tudo uma questão de ver o copo meio-cheio ou meio- vazio. Uma questão de perspectiva. Como viver ou não do lado certo da verdade.

Wednesday, May 16, 2007

Os limites da democracia



O que define as nossas convicções políticas? A família? O meio onde crescemos? A sociedade em que estamos inseridos? As três coisas, certamente, mas algo mais. Algo de profundamente pessoal e que engloba aquilo que somos como indivíduos, medos traumas, ambições. Só assim se explica a minha dissidência à esquerda numa familia uniformemente de direita, ou o fenómeno dos manos Portas, filhos dos mesmos pais, educação e meio social e com visões políticas diametralmente opostas.
Na democracia em que vivemos esta opção de convicções políticas é admissível, senão esperada. A cultura ocidental, tão pródiga na sua promoção do individualismo, espera que cada um pense por si e se posicione face ao mundo, assim como espera que os restantes o aceitem, por menos que concordem. Essa é a fundação da democracia, essa capacidade de conceber que haja pessoas com ideias diferentes às nossas e que a elas têm direito, por mais que nos apeteça mandá-los calar ou apertar o pescocinho.
Se a democracia não é perfeita, e conhecemos-lhe tantas falhas, ao menos numa coisa todos concordamos: a base de tolerância é o modelo essencial que pretendemos exportar para civilizar os bárbaros, é por esta atitude que muitos (tantos!) povos oprimidos lutam e dão a vida. Claro que nós que já estamos confortávelmente instalados nas convicções vemos as coisas de forma consideravelmente diferente. E temos dilemas morais por causa disso mesmo.
A possível (provável?) entrada da Turquia na União Europeia é só uma pequena ponta do iceberg de uma Europa democrática pouco confortável na sua pele. Desde debates sobre religião a pequenas erupções do acne extrema-direita, fica-se com a ideia que democracia é mais clara- e mais fácil- em teoria.
Se não entrarmos no assunto sensível do choque de civilizações, a entrada da Turquia na União Europeia continua a ser um assunto espinhoso e ingrato. Por cada vantagem há sempre algo com o qual não estamos confortáveis. Se, por um lado, pode constituir um enclave fundamental no mundo árabe, qualquer coisa como o último posto de civilização antes dos bárbaros (leia-se com ironia, mas não muita), por outro são uma porta de entrada excelente para terroristas e outra coisa ainda pior: hordas de emigrantes . E se a Europa treme com a possibildade de ondas de emigrantes de cor ou religião tão diferente... Se por um lado a Turquia é um excelente mercado, com uma economia em expansão, por outro lado o seu desprezo por direitos humanos deixa-nos mais que só um pouco desconfortáveis. Louvamos-lhe a laicidade do governo, quase caso único no mundo árabe, mas a religião predominante e tudo o que engloba- o tratamento das mulheres, o apelo ao fanatismo religioso- causa-nos repulsa e repúdio. Em última análise, o clube cristão da Europa prefere manter o menino árabe de fora, e acabou-se.
O imaginário colectivo europeu tem uma imagem construída da civilização árabe não especialmente positiva. Foram séculos e séculos de lutas e de hostilidade. A democracia na Europa é demasiado recente (o que são cinquenta anos comparados com os novecentos e cinquenta anteriores?) para conseguir encaixar o árabe com tolerância e como igual (não com o paternalismo de quem acha que pertence a uma civilização superior).
Encaremos a verdade: a entrada da Turquia na União Europeia é um teste aos limites da nossa capacidade democrática, um teste não superado até agora.
Sejamos honestos (eu, pelo menos, vou ser) : a capacidade de tolerância em democracia é elástica, mas não ilimitada. Temos liberdade de expressão, mas não podemos ter sexo em público. A pornografia é aceite, mas não outro tipo de vivências da sexualidade, como a pedofilia. Podemos ter convicções políticas à vontade, mas os movinmentos de extrema-direita de inspiração nazi/xenófoba/racista são, no mínimo dos mínimos, desencorajados. Afinal, a democracia tem e, dentro dos seus limites naturais, faz respeitar os valores de uma matriz ética específica. E esses valores são os limites da democracia. Da raiz do movimento revolucionário- liberdade, igualdade, fraternidade, emanaram um conjunto de valores expressos em documentos tão importantes como a carta dos direitos humanos, a convenção europeia ou a carta dos direitos fundamentais e que, em teoria, regem a nossa vida comum em democracia. E estes valores não podem (nem devem) na minha opinião ser negociados ou postos em causa. Afinal nisto (e só nisto) concordo com Bento XVI- o relativismo moral é perigoso e indesejável, há limites.
Confesso que, apesar de esquerda, a entrada da Turquia me deixa um tudo-nada incomodada. Tudo aquilo em que acredito e tento praticar sobre o repúdio da sobranceria cultural, a tolerância religiosa e a compreensão por todos os seres humanas entra em directo conflito sobre aquilo que sei sobre a Turquia. Tento não deixar o medo vencer, mas é muito difícil, neste momento civilizacional, para qualquer cidadão ocidental não ter pelo menos um bocadinho de fobia em relação ao mundo árabe. Fico furiosa por este medo (as bases de todas as racionalizações acima são também um bocado isto, mas sou eu e muitos milhões na UE a pensar assim) e mais ainda por ir contra as minhas convicções da democracia, mas não há volta a dar-lhe, a democracia tem mesmo limites, e o que está para lá das suas fronteiras mete medo. Muito.

Tuesday, May 15, 2007

O Senhor Terceira Via



Dez anos depois, à saída, Tony Blair deixa poucas saudades. Aquilo que começou como um mandato cheio de esperança acabou amargo e contestado, mesmo dentro do próprio partido, alguns achando até que deveria ser julgado por crimes de guerra. Mas goste-se ou não se goste deixa um legado insuperável, a terceira via.
Nos anos noventa cá em Portugal, Guterres foi aclamado como o herdeiro cá no burgo da terceira via de Blair. A terceira via era a coqueluche da governação da Europa de então. Sabem o que dizem, que se há algum sítio onde se inova ao nível de governo dos povos essse sítio é a Europa.
Para o bem e para o mal somos nós o tubo de ensaio de modelos governativos que depois são exportados para o resto do mundo. Ora, o novo modelo experimentado a partir dos anos noventa, e que está bem e se recomenda, foi a terceira via. Num contexto ideologicamente bem demarcado, tanto à esquerda como à direita, a terceira via veio trazer o que, na altura se achou uma lufada de ar fresco, libertando-se das partes mais dogmáticas da ideologia em questão para governar mais, digamos, ao centro. É a esquerda light, assim não muito esquerda. Se um jornal inglês ironizou chamando de gémeos siameses Guterres e Durão Barroso, eles também não tinham muito por onde falar tendo como primeiro ministro um Blair tão Thatcher como a senhora Thatcher em questão de sindicatos, salários, condições de trabalho e impostos.
Também na questão da guerra foi Blair terceira via, demarcando-se dos seus congéneres europeus e alinhando, até às últimas consequências, com os Estados Unidos, com os resultados que se viram.
No fundo, o maior legado que Blair deixou foi precisamente esta terceira via, esta maneira de governar em terceira via, nem carne nem peixe, uma espécie de surfismo político em que se apanham as ondas que dão mais jeito e votos. É isso, e não a ideologia, que governa neste momento a Europa. A esquerda perdeu causas e razões com a queda do bloco, a direita deu tal volta ideológica que a reaccionária, porque não se mexe, é agora a esquerda. Blair foi o primeiro desta geração de desenrascados que fazem pela vida e não ligam a promessas e sim à conjuntura. Foi o primeiro, mas não o último. Infelizmente.

O Fascínio

Assim como há meses atrás o cidadão ficou a conhecer todos os recantos do conclave e há dias ficou a conhecer todos os detalhes do pescoço do pantera negra, agora se familiarizou com os cenários da praia da Luz: a janela sobre o relvado no rés de chão do Ocean Club, as sebes podadas da casa de Murat, o restaurante ao fundo da rua. Discute com os amigos os protagonistas, conta a história de mais este teatro do absurdo do qual é espectador para não desempenhar ou reconhecer o seu papel de protagonista na peça da vidinha do T2 em Cruz de Pau, do Ibiza parado no Centro-Sul e da escola da prole, de cujo nome não se recorda ou não se esforça por decorar. O progressivamente esvaziado blitz mediático, à espera de um novo acontecimento que lhe suceda, faz a ponte para o irrelevante mas é a única peça em cena. E é mesmo ali, tão perto daquele T0 na Mexilhoeira alugado por uma semana em Julho...

E porque 1+1=2 é por isso todo um dever do cidadão a peregrinação à Praia da Luz, a contemplação vazia mas serena do local do presumível crime ocorrido há meses e que agora menos furor mediático despertará do que a reentrada futebolística. A peregrinação não é um acto de fé, mas de fascínio. É a Universal Studios dos pequeninos onde os olhos c(l)ínicos vão brincar ao CSI.

A avaliação dos factos - estava o restaurante a 30 metros do apartamento ou a 100? Via-se ou não a janela dali? - a percepção das personalidades - o que dizem as plantas da casa de Murat sobre a sua propensão ao crime? Eram os ingleses melhores pais por ter escolhido um rés-de-chão de onde as crianças não pudessem caír? Ou aquela casa estava mesmo a jeito para fazer alguém desaparecer uma miúda? Conjecturar é fácil e afirmar a conjectura um direito inalienável.

Com sorte ainda se verá um jornalista, um canito ou uma testemunha ocular. Seria o ponto alto de uma tarde bem passada, e agora alas a caminho da piscina que já se fez a digestão. De uma coisa estou certa, aquela rua este Verão vai ter comboio turístico.

E, já agora, o nome dela é Madeleine.

Tuesday, May 8, 2007

Heroísmo


Deus está morto, disse ele.

E os heróis? Está viva ou morta a semi-divindade?

Podemos ou queremos suportar hoje em dia um tipo de heroísmo maior do que o simples altruísmo, sob o risco de cruzar a linha entre a admiração e a inveja? A vida de um candidato a herói no mundo pós-moderno não é fácil, pois tem pela frente o arqui-inimigo do politicamente correcto, essa grande máquina burocrática da razão. Mas como vive o heroísmo hoje em dia? Poderia distinguir distinguir entre o heroísmo de ´baixa` e de ´alta densidade`.

As sub-raças mais comuns de mortais associadas hoje em dia ao heroísmo por via da ´baixa densidade` fariam Hércules pensar duas vezes em conceder a Homero os direitos de narração dos seus feitos; o culto superficial dos donos da bola ou dos actores da realidade é uma válvula de escape da vidinha – uma trivela do Quaresma ou um cartaz do Gato Fedorento são milagres que satisfazem a ânsia do extraordinário, mesmo que a baixa fasquia. Mas não sigamos por este heroísmo que se dissipa na espuma dos dias.

Antes se pegue no conceito de heroísmo de ´alta densidade`, o qual está mais perto do modelo clássico, mas em minha opinião este tem duas variantes consoante o sonhador: vejo uma tendência da inteligência para adorar anti-heróis e vejo uma tendência da ingenuidade para adorar super-heróis. É por mercê dessa divisão que o Mercado nos traz em grandes e pequenos écrãs os heróis modernos, onde a par dos actos extraordinários tem de existir a chamada ´profundidade dramática da personagem` que nos desperte a mais variada gama de sentimentos – e, se possível, que os manipule no sentido do conflito.

Prolongando o politicamente correcto da vidinha, os nossos heróis-mesmo-heróis devem ser adorados mas também lhes temos de poder partir as pernas – afinal, nós não passamos de uma manada de coxos.

Mas estendendo-me nesta divagação não me decidi ainda pela vida ou pela morte dos heróis, pela vida ou pela morte do heroísmo. Pois bem, a sentença desta cabeça é um sim e um não. Um sim porque um bom herói é um herói morto, um herói que deu origem a um mito, um herói que desapareceu na altura certa antes que alguem lhe cortasse as asas da semi-divindade. Um não porque, embora pouco espaço haja para o heroísmo na realidade da vidinha, há tempos e lugares extraordinários onde as convenções desta se quebram, abrindo-se as portas para a possibilidade de renovação do mito do ´homem providencial`.

O heroísmo nos écrãs, novos contadores de histórias e guardiães das nossas memórias de peixinho de aquário, sempre vai à laia de medalha de consolação mantendo viva uma chama – um mundo de adultos não deve enterrar o heroísmo e desprezar as histórias de heróis para que não esqueça de que apesar de tudo somos capazes de, eventualmente, sob certas circunstâncias, com certas restrições, com dadas condições PTN etc., levar a cabo algo que os nossos olhos não enxergam. O mundo dos adultos não deve enterrar o heroísmo como sendo algo de mau por irresponsável ou não convencional.

Portanto não, o heroísmo não está morto. Pode estar mascarado por vícios ou ofuscado por cultos rápidos, mas é assim que nós somos – imperfeitos e cuscos. Eventualmente, teremos tanto de heróis como disso.

Agora calo-me e prometo que quando tiver mais cabelos brancos vou escrever sobre a morte-ou-não-morte de Deus.

E não se pode rifá-lo?


Há alturas na vida de uma pessoa em que ser democrático e tolerante cansa, a sério. Não sei quanto a vocês, mas a mim aborrece-me de morte o Alberto João. É que já nem é só o seu discurso intratável e delirante, nem os seus tiques de monarca absoluto. Não, já é tudo. Desde a sua careca brilhante e o seu ar descuidado, o seu charuto malcheiroso, a sua voz de tia histérica... Tudo nele me desperta um enorme, não, gigantesco asco. Por mais democrata e tolerante que se possa ser estou nos meus limites, já só o quero ver ao longe, ou, pelo menos, calado. Isto chegou ao ponto que já nem sequer consigo fazer com ele o que faço com o presidente da república, que é ignorar e fingir que ele não é meu presidente, com o Paulo Portas, que é desprezar e mudar de canal, ou a Ministra da educação, que é odiar de forma indiscriminada tudo o que diz respeito à sua pessoa de forma fria e deliberada. Não, chegou ao ponto do horror tão mórbido que me deixo ficar a vê-lo como a um acidente de trânsito particularmente horrível e, a desejar, com todas as minhas forças que o rifem. Nisto, o primeiro-ministro tem toda a minha solidariedade: se eu fosse ele, também não queria ter de lidar com o Alberto João. Não tenho nada de específico contra o povo da Madeira, mas esta sua teimosia em eleger este homem intratável faz-me pensar... Uma vez que não, por mais que não gostemos dele não o podemos rifar, que tal dar independência à Madeira? A sério, eles que são brancos, ou como quem diz, que o elegeram, que o aturem...

Monday, May 7, 2007



Este é um blog político. Podem, e devem esperar posts tendenciosos à esquerda e à direita e todo o tipo de opiniões polémicas e discutíveis. Não digam que não foram avisados.

Cordialmente...


A direcção.